O estágio também forma futuros líderes

Seme Arone Junior, presidente da Abres
Palavras chaves: Abres carreira estagio estágio
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Data 15/10/2026
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As primeiras experiências profissionais ajudam a desenvolver habilidades importantes para quem, no futuro, poderá assumir posições de liderança

Quando pensamos em liderança, normalmente imaginamos profissionais experientes, ocupando cargos de gestão e tomando decisões capazes de movimentar uma equipe inteira. Ao longo da minha trajetória, porém, percebi uma realidade diferente: muitas das características esperadas de um bom líder começam a ser desenvolvidas antes do primeiro cargo de gestão.

O estágio tem um papel importante nesse processo. Afinal, representa para muitos jovens o primeiro contato com responsabilidades profissionais, metas, equipes e diferentes níveis de hierarquia. É também uma oportunidade para aprender a ouvir, argumentar, receber orientações e lidar com situações novas. Aos poucos, o estudante começa a construir uma postura diante do trabalho e das pessoas ao seu redor.

Por isso, considero a modalidade como um espaço de formação de lideranças. Não no sentido de preparar alguém imediatamente para comandar uma equipe, mas de oferecer experiências capazes de desenvolver maturidade e consciência profissional.

Liderança começa antes do cargo

Ninguém se torna um bom líder apenas após receber uma promoção. A capacidade de conduzir pessoas é construída ao longo do tempo, a partir de vivências, aprendizados e responsabilidades assumidas.

Durante um estágio, o jovem ainda está aprendendo os fundamentos da profissão, mas já pode participar de projetos, apresentar ideias, colaborar com colegas e buscar soluções para problemas cotidianos. Sob uma supervisão adequada, essas experiências ajudam a desenvolver autonomia sem retirar o caráter educativo da modalidade.

Nessa fase, o gestor é fundamental. Isso porque o estudante precisa encontrar alguém disposto a orientar, explicar decisões e oferecer espaço para perguntas. Além de acompanhar tarefas, esse profissional se torna uma referência. A maneira como conduz um erro, oferece um feedback ou reconhece uma evolução pode influenciar profundamente a forma como aquele jovem passará a enxergar o ambiente profissional.

O primeiro gestor também ensina pelo exemplo

Tenho especial atenção a esse ponto porque a primeira liderança costuma permanecer na memória. Um gestor pode ensinar muito sem transformar cada orientação em uma aula formal. A forma como trata a equipe, reage diante de uma dificuldade, distribui responsabilidades e reconhece o trabalho dos outros transmitindo valores diariamente.

Para um estudante em início de carreira, observar esse comportamento possui grande valor. Ele começa a entender não apenas como uma atividade deve ser realizada, mas também como as relações profissionais podem ser construídas. Na minha visão, esse aprendizado ajuda a formar profissionais mais preparados para assumir responsabilidades futuras.

Efetivação mostra a força do estágio

A própria trajetória de muitos estagiários demonstra como essa primeira experiência pode evoluir. Segundo dados da Abres, entre 40% e 60% dos estudantes são efetivados ao final do contrato. Atualmente, o país reúne aproximadamente 1,2 milhão de estagiários, sendo 925 mil no ensino superior e 275 mil no ensino médio e técnico, conforme pesquisa exposta pela Abres. 

Esses números mostram uma relação capaz de ultrapassar o período previsto no programa. Quando existe desenvolvimento durante o estágio, a empresa passa a conhecer melhor aquele profissional e suas competências, enquanto o jovem chega às próximas etapas da carreira com uma bagagem construída dentro de situações reais. 

Formar pessoas exige tempo

Existe uma diferença importante entre encontrar alguém pronto e desenvolver um profissional. A primeira alternativa pode atender uma necessidade imediata. A segunda exige acompanhamento, paciência e disposição para ensinar, mas também cria possibilidades de longo prazo.

Por isso, acredito na participação dos gestores como parte essencial de uma política de desenvolvimento de talentos. O estudante precisa ter espaço para aprender e, gradualmente, conquistar autonomia. A empresa, por sua vez, ganha a possibilidade de acompanhar essa evolução desde o início.

O próximo líder pode estar começando agora

Mais de 20 milhões de estudantes brasileiros estão aptos a realizar estágio, enquanto cerca de 1,2 milhão vivem atualmente essa experiência. Esse universo representa além de futuros profissionais em busca da primeira oportunidade, mas sim pessoas capazes de desenvolver novas competências, assumir responsabilidades e, com o tempo, ocupar diferentes posições dentro das organizações. O desenvolvimento de uma liderança começa não em um cargo, mas nas oportunidades oferecidas ao longo do caminho.

* Seme Arone Junior é presidente da Associação Brasileira de Estágios – Abres