
Ao desenvolver jovens desde o início da trajetória profissional, empresas também constroem alternativas para seus próprios desafios futuros
Existe uma diferença importante entre preencher uma vaga e formar um profissional. Isso porque a primeira ação responde a uma necessidade imediata da empresa, já a segunda exige uma visão mais ampla, voltada para desenvolvimento, cultura e futuro. Nessa última perspectiva o estágio ganha força.
Na minha trajetória profissional, acompanhei diferentes momentos do mercado e percebi como as empresas precisam se adaptar continuamente. Novas tecnologias aparecem, competências mudam e algumas funções são transformadas em poucos anos. Diante disso, esperar sempre por profissionais completamente prontos pode não ser a única estratégia possível. Também precisamos olhar para quem ainda está em formação.
O profissional pronto também precisou de uma primeira oportunidade
Existe uma contradição interessante no mercado: muitas empresas procuram experiência, mas todo profissional experiente precisou começar em algum momento. O estágio ajuda a construir essa primeira etapa de maneira acompanhada. O estudante chega com conhecimento acadêmico recente e disposição para aprender, enquanto a organização oferece contato com processos, equipes e situações reais.
Essa relação permite desenvolver competências alinhadas às necessidades do negócio sem abandonar o caráter educativo da modalidade. Por isso, considero o estágio uma ferramenta de formação, mas também uma possibilidade estratégica para as empresas.
A empresa também ganha um novo olhar
Existe outro aspecto capaz de passar despercebido: jovens não chegam às organizações apenas para aprender. Eles também trazem perguntas, referências e perspectivas diferentes. Em um ambiente corporativo acostumado a determinados processos, essa presença pode estimular novas conversas e provocar reflexões importantes.
Não significa esperar de um estagiário soluções prontas para grandes problemas, mas reconhecer o valor de uma pessoa em formação participando de uma equipe e apresentando seu próprio repertório. Para empresas inseridas em mercados cada vez mais dinâmicos, essa troca pode ser bastante valiosa.
Existe um grande potencial ainda fora das organizações
Os números expostos pela Abres ajudam a dimensionar essa oportunidade. O Brasil possui mais de 20 milhões de estudantes aptos a estagiar, enquanto aproximadamente 1,2 milhão estão atualmente nesta experiência. Em outras palavras, apenas cerca de 6% desse universo consegue acessar uma oportunidade de estágio.
Esse cenário me faz pensar não apenas no potencial de crescimento da modalidade, mas também na quantidade de talentos ainda fora das empresas. Cada organização possui necessidades diferentes, algumas procuram profissionais de tecnologia; outras precisam fortalecer áreas administrativas, jurídicas, financeiras, de comunicação ou engenharia. Em todos esses campos existem estudantes construindo conhecimento e procurando uma oportunidade para transformá-lo em experiência.
Desenvolver também é uma estratégia de retenção
Quando a empresa acompanha um estudante desde o início, passa a conhecer seu perfil, sua evolução e maneira de trabalhar. O jovem, por sua vez, conhece a cultura da organização e entende melhor suas expectativas.
Esse período de convivência pode criar bases para uma relação profissional mais longa. Os dados da Abres mostram: entre 40% e 60% dos estagiários são efetivados ao final do contrato.
Não existe garantia de permanência, nem essa deve ser a finalidade exclusiva do estágio. Ainda assim, a possibilidade de continuidade demonstra como investir na formação pode aproximar empresa e profissional de maneira consistente.
O futuro dos negócios também passa por pessoas em formação
Vejo o desenvolvimento de talentos como uma construção contínua. Empresas precisam pensar nas competências necessárias hoje, mas também nas habilidades capazes de sustentar seus negócios nos próximos anos.
Nesse contexto, abrir espaço para estudantes pode ser uma decisão estratégica. Além de ocupar posições iniciais, eles estão começando a construir repertório. Ao oferecer orientação e desafios compatíveis com sua etapa de formação, a organização participa desse processo e, ao mesmo tempo, amplia seu próprio potencial de renovação.
Formar talentos exige olhar além da vaga
Para mim, essa é a principal reflexão. Temos um universo de mais de 20 milhões de estudantes aptos ao estágio e apenas uma parcela ainda pequena inserida nas empresas. Não precisamos enxergar essa diferença apenas como um número. Ela representa milhões de histórias ainda no começo, pessoas descobrindo profissões e organizações capazes de participar dessas trajetórias.
Preencher uma vaga resolve uma demanda, quanto formar um talento exige mais tempo, atenção e compromisso. Em contrapartida, pode criar profissionais mais preparados e empresas mais conectadas ao futuro.
Nesse cenário, o estágio precisa ocupar um espaço estratégico nas discussões sobre talentos. Afinal, muitas vezes, o profissional capaz de fazer diferença amanhã ainda está procurando sua primeira oportunidade hoje.
* Seme Arone Junior é presidente da Associação Brasileira de Estágios – Abres