Saúde mental também é indicador de qualidade no estágio

Seme Arone Junior, presidente da Abres
Palavras chaves: Abres estagio saude mental
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Data 05/11/2026
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Monitorar o bem-estar emocional se tornou parte da gestão

Os afastamentos por transtornos mentais no Brasil chegaram ao maior patamar da última década. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, mais de 546 mil benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos somente em 2025. O número reforça como a saúde emocional deixou de ser um tema periférico e passou a integrar a gestão de riscos corporativos.

Esse avanço ficou ainda mais evidente com a atualização da NR-1, ao incluir os fatores psicossociais entre os riscos a serem monitorados pelas organizações. Na prática, isso as empresas passam a ter a obrigação de acompanhar continuamente o bem-estar de suas equipes e de reunir evidências documentais das ações adotadas, em vez de apenas realizar campanhas pontuais de conscientização.

Esse cenário interessa diretamente ao universo dos estágios. Os primeiros meses de vida profissional costumam concentrar um volume importante de pressão, adaptação e aprendizado acelerado, especialmente para quem ainda concilia a rotina com os estudos. Um ambiente capaz de acompanhar sinais de exaustão, insegurança psicológica ou desengajamento desde essa fase inicial tende a formar profissionais mais preparados e protege a empresa de problemas.

O que não é documentado dificilmente é percebido pela fiscalização

Muitas organizações ainda tratam ações isoladas de conscientização como sinônimo de gestão emocional estruturada, quando na verdade são etapas diferentes do mesmo processo. As fiscalizações, auditorias e futuras certificações devem passar a exigir evidências cada vez mais objetivas, como quais riscos foram identificados, as medidas adotadas e os resultados alcançados. O gerenciamento do bem-estar precisa ser rastreável, assim como já acontece com outros indicadores corporativos.

Além da conformidade regulatória, o impacto financeiro dessa negligência é significativo. Absenteísmo, presenteísmo, aumento da rotatividade, afastamentos médicos e ações trabalhistas estão entre as consequências mais associadas à ausência de monitoramento dos riscos psicossociais. De acordo com estimativa da Organização Mundial da Saúde, depressão e ansiedade geram perdas globais de produtividade equivalentes a cerca de US$ 1 trilhão por ano. Esse número evidencia como o cuidado com a saúde emocional também é uma questão estratégica para os negócios.

Entre os indicadores ganhando espaço dentro da governança corporativa estão o nível de estresse ocupacional, a percepção de pertencimento, a segurança psicológica, os conflitos interpessoais, o engajamento, a exaustão emocional e a intenção de desligamento. Acompanhar esses sinais desde o estágio contribui para formar profissionais mais resilientes e ajuda as empresas a identificarem tendências antes de se transformarem em problemas maiores.

Esse tema ficava restrito ao RH, e hoje já ocupa espaço crescente em áreas como jurídico, compliance, auditoria interna e gestão de riscos. A saúde emocional passou a influenciar decisões ligadas à governança e à sustentabilidade dos negócios, caminhando para ocupar o mesmo patamar estratégico dos indicadores de segurança e qualidade nas empresas.

Para a Abres, incentivar boas práticas de acolhimento e acompanhamento emocional desde o estágio é parte essencial da construção de carreiras sólidas. Aspectos antes tratados como diferencial estão se tornando obrigação. Esse entendimento desde a base da formação profissional deixa a companhia mais preparada para os desafios impostos pelo mercado de trabalho.

*Seme Arone Junior é presidente da Associação Brasileira de Estágios – Abres