2ª Temporada de Estágios 2026: crescimento com novos desafios 

Seme Arone Junior, presidente da Abres
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Data 17/09/2026
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Ao longo dos anos, acompanhando de perto o mercado de trabalho e a trajetória de milhares de estudantes, aprendi a enxergar o estágio muito além de uma primeira oportunidade profissional. Ele representa um dos principais pontos de conexão entre educação, desenvolvimento e mercado. Por isso, acompanho com atenção cada movimento nas contratações e, especialmente, o comportamento das empresas diante das novas gerações.

A segunda temporada de estágios de 2026 traz um cenário positivo, embora diferente daquele observado em períodos de expansão mais acelerada. Entre julho e setembro, a Abres projeta aproximadamente 73,7 mil vagas de estágio em todo o Brasil, crescimento próximo de 3% em relação às 71,5 mil oportunidades estimadas no mesmo período de 2025.

Na minha visão, esse crescimento moderado não deve ser interpretado como falta de dinamismo. Pelo contrário. Ele mostra um mercado capaz de continuar avançando mesmo diante de uma economia em ritmo mais cauteloso.

O ensino superior lidera esse movimento

Dos 73,7 mil estágios projetados para a temporada, cerca de 61,5 mil oportunidades devem ser destinadas ao ensino superior, crescimento de 3,3%. Para o ensino médio e técnico, a estimativa chega a 12,2 mil vagas, avanço de 1,7%. Esse cenário chama minha atenção por um motivo muito claro: existe uma demanda crescente por jovens capazes de combinar formação acadêmica com experiência prática.

Como empresário, percebo diariamente o valor dessa combinação. O conhecimento adquirido em sala de aula é fundamental, mas a vivência profissional desenvolve outras competências. Comunicação, responsabilidade, organização, capacidade de resolver problemas, relacionamento com equipes e compreensão da cultura de uma empresa são aprendizados construídos também no cotidiano.

Por isso, sempre defendi o estágio como uma via de mão dupla. O estudante aprende com a empresa, mas a empresa também aprende com o estudante.

Os jovens chegam trazendo novas referências, familiaridade com tecnologias, outras formas de pensar e diferentes expectativas sobre o trabalho. Quando existe abertura para essa troca, o ambiente profissional se torna mais rico.

Um mercado de trabalho mais aquecido muda o jogo

Outro aspecto importante desta temporada está relacionado ao mercado de trabalho brasileiro. A taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em junho de 2026, segundo o IBGE. Esse número ajuda a explicar uma transformação importante: as empresas não estão mais disputando apenas clientes e resultados. Em muitos setores, também disputam talentos.

Tenho acompanhado essa mudança ao longo da minha trajetória empresarial. Em momentos de maior disponibilidade de profissionais, muitas organizações conseguem concentrar seus esforços simplesmente em preencher uma posição. Em um mercado mais aquecido, essa lógica deixa de funcionar tão bem.

O estudante passa a avaliar a empresa antes de aceitar uma oportunidade. Ele quer saber sobre desenvolvimento, ambiente, liderança, aprendizado, possibilidades de crescimento e propósito. Também deseja compreender como aquela experiência poderá contribuir para seu futuro. Essa mudança é positiva, pois obriga as empresas a repensarem a forma como apresentam suas oportunidades e, principalmente, como recebem e desenvolvem seus estagiários.

Não basta oferecer uma vaga

Existe uma diferença enorme entre contratar um estagiário e formar um profissional. Ao longo da minha experiência, aprendi algo importante: uma oportunidade profissional pode mudar a trajetória de uma pessoa. Para muitos jovens, o primeiro estágio representa um momento para começar a entender suas próprias capacidades, descobrem novas áreas de interesse e passam a visualizar possibilidades para o futuro.

Por isso, considero fundamental oferecer uma experiência estruturada. Não adianta apenas colocar um jovem dentro de uma empresa e esperar resultados. É preciso orientar, acompanhar, dar espaço para perguntas, oferecer desafios compatíveis com sua formação e permitir a construção gradual de autonomia.

Quando olho para os números da segunda temporada de 2026, vejo justamente essa oportunidade. O crescimento das vagas mostra empresas dispostas a continuar investindo na formação de novos profissionais, mas também vejo uma responsabilidade. Precisamos garantir qualidade nessas experiências.

O estágio também forma empresas

Essa talvez seja uma das maiores lições acumuladas durante minha trajetória. Costumamos falar muito sobre como o estágio prepara o jovem para o mercado. Isso é absolutamente verdadeiro. Mas existe outro lado: o estagiário também ajuda a preparar as empresas para o futuro.

Ao conviver com estudantes, as organizações têm contato direto com novas expectativas, comportamentos e competências. Essa aproximação permite compreender melhor uma geração capaz de transformar relações profissionais, consumo, tecnologia e cultura corporativa.

Empresas interessadas em permanecer relevantes precisam escutar essas novas vozes. O estágio cria justamente esse espaço de aproximação. Por isso, acredito tanto nessa modalidade. Ela não beneficia apenas quem está começando. Também ajuda organizações a desenvolverem uma visão mais atual sobre pessoas, carreira e futuro.

O crescimento pode ser moderado, mas o impacto é grande

A projeção de 73,7 mil vagas entre julho e setembro representa um crescimento de aproximadamente 3%. Em um primeiro olhar, pode parecer um avanço discreto. Eu prefiro enxergá-lo por outra perspectiva.

Cada uma dessas oportunidades representa uma possibilidade concreta de aprendizado. São milhares de jovens entrando em empresas, conhecendo profissões, desenvolvendo competências e descobrindo caminhos para suas carreiras. Também são milhares de empresas assumindo um papel importante na formação profissional.

O cenário econômico de 2026, com projeção de crescimento de 2,3% do PIB, segundo a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, reforça a expectativa de uma expansão gradual. Não estamos diante de um mercado acelerado como em alguns ciclos anteriores, mas temos uma base capaz de sustentar novas oportunidades. Para mim, crescimento sustentável também significa isso: avançar com consistência, preparar pessoas e construir relações profissionais capazes de durar.

O futuro começa antes da contratação

Tenho uma convicção construída ao longo de muitos anos de atuação: o futuro do trabalho começa muito antes do primeiro emprego. Ele começa na escola, na faculdade, em uma conversa sobre carreira, em uma entrevista, no primeiro desafio profissional e, principalmente, na oportunidade de experimentar.

O estágio ocupa um espaço especial nessa trajetória porque permite ao jovem aprender fazendo. Por isso, vejo a segunda temporada de 2026 com otimismo. O crescimento das oportunidades mostra um mercado ainda disposto a investir na formação de talentos, enquanto o avanço do ensino superior reforça a importância da conexão entre conhecimento acadêmico e experiência prática.

Para os estudantes, fica o convite para aproveitar esse momento, buscar oportunidades, fazer perguntas e escolher experiências capazes de contribuir para seus objetivos. Para as empresas, fica um desafio ainda maior: olhar para o estágio como investimento, não apenas como contratação.

Acredito profundamente nisso porque acompanhei, ao longo da minha vida profissional, o impacto capaz de surgir quando uma oportunidade encontra uma pessoa disposta a aprender. Às vezes, começa com uma vaga, mas pode terminar com uma carreira inteira.