
País possui mais de 20 milhões de jovens em idade e condição para estagiar, mas apenas 1,2 milhão conseguem acesso à experiência prática profissional
O Brasil vive um paradoxo educacional. Nunca houve tantos estudantes matriculados no ensino médio, técnico e superior. Ao mesmo tempo, milhões de jovens continuam afastados da experiência prática capaz de transformar conhecimento em carreira. Os números mais recentes, divulgados pelo Inep/MEC e expostos pela Abres – Associação Brasileira de Estágios, mostram um cenário preocupante: dos cerca de 20,1 milhões de estudantes aptos ao estágio no país, apenas 6% conseguem uma oportunidade.
O dado revela um desalinhamento entre educação e mercado de trabalho. Embora o acesso ao ensino tenha avançado, especialmente no ensino superior, ainda falta criar caminhos reais para transformar a formação acadêmica em empregabilidade.
Segundo os dados, o Brasil contabiliza atualmente 9,8 milhões de estudantes no ensino médio e técnico e outros 10,2 milhões no ensino superior. Apesar desse contingente expressivo, apenas 275 mil estudantes do ensino médio e técnico realizam estágio, representando somente 2,79% do total. Entre universitários, dos mais de 10 milhões matriculados, cerca de 925 mil estagiam, um índice de apenas 9,04%. Esses números demonstram um desperdício de potencial humano em larga escala.
Estágio não é benefício: é formação
Ainda existe uma visão equivocada em parte do mercado ao enxergar o estágio apenas como apoio operacional ou ação opcional. Na prática, trata-se de uma das ferramentas mais importantes para formação de profissionais preparados e produtivos.
O estágio permite ao estudante desenvolver competências técnicas, fortalecer habilidades socioemocionais e compreender dinâmicas do ambiente corporativo antes da entrada definitiva no mercado de trabalho. Além disso, aproxima teoria e prática, reduz inseguranças profissionais e melhora significativamente os índices de empregabilidade.
Outro fator relevante envolve a permanência educacional. O estudante com oportunidade de estágio encontra maior motivação para concluir a formação, pois consegue visualizar propósito no aprendizado e, muitas vezes, complementar renda. Ampliar programas de estágio significa também combater a evasão acadêmica.
Empresas ainda contratam menos do que poderiam
Apesar dos benefícios comprovados, muitas empresas brasileiras ainda mantêm programas de estágio reduzidos ou sequer possuem iniciativas estruturadas. Em alguns casos, existe desconhecimento sobre o potencial estratégico dessa modalidade. Em outros, prevalece receio relacionado à burocracia ou insegurança jurídica.
No entanto, contratar estagiários representa um investimento de longo prazo. Jovens talentos chegam às organizações com disposição para aprender, familiaridade tecnológica e novas perspectivas. Em um cenário de transformação digital acelerada e mudanças constantes no mercado, essa renovação torna-se ainda mais valiosa.
A chamada Geração Z, por exemplo, valoriza o aprendizado contínuo, propósito e conexão prática entre estudo e profissão. Ignorar essa característica significa perder oportunidade de formar profissionais alinhados às novas exigências do mercado. Além disso, pesquisas da Abres mostram taxas de efetivação entre 40% e 60% dos estagiários, reforçando o estágio como uma das principais portas de entrada para contratação formal.
O Brasil precisa acreditar mais na juventude
O estágio não pode continuar sendo privilégio de poucos. Cada vaga aberta representa uma oportunidade concreta de transformação social, desenvolvimento econômico e construção de carreiras.
Empresas possuem papel decisivo nesse movimento. Contratar estagiários não significa apenas preencher posições temporárias. Significa formar profissionais, estimular inovação e contribuir diretamente para o futuro do país.
O Brasil possui uma geração cheia de potencial, criatividade e vontade de crescer. Falta, muitas vezes, apenas a primeira oportunidade. Se quisermos um país mais produtivo, competitivo e preparado para os desafios do futuro, precisamos investir na juventude hoje. Afinal, quando um jovem recebe oportunidade para aprender na prática, não apenas uma carreira começa. Um futuro inteiro ganha a chance de acontecer.
*Seme Arone Jr., presidente da Associação Brasileira de Estágios (Abres)