O Brasil é o país da América Latina que mais investe em
programas de estágios. Essa é a conclusão de uma pesquisa feita pelo Instituto Stanton Chase International, uma multinacional de recrutamento de executivos, representada no Brasil pelo Grupo Foco. As razões para tanto investimento em jovens talentos é simples, segundo os especialistas do assunto. As empresas
podem formar os próprios líderes, escolhendo e moldando os futuros profissionais de acordo com as características que elas desejam. Tudo isso em um curto espaço de tempo. Os estagiários chegam ao mercado com muita vontade de aprender e se
entregam à preparação com afinco.
Rudney Pereira Júnior, gerente da Foco Talentos, comenta que o resultado do estudo não foi uma surpresa. Ele lembra que
a falta de mão-de-obra qualificada é uma reclamação constante dos empregadores. “Por isso, o estagiário é uma grande vantagem para a empresa. Quem investe na capacidade desses jovens recebe o retorno desejado, porque o estudante tem vontade de aprender e se adapta às características exigidas dele rapidamente”,
justifica. Segundo Rudney, o número de estagiários que se destacam e são contratados é alto. “Ninguém quer investir dois anos em uma pessoa para depois jogá-la pronta no mercado”, pondera.
Para o estudo, foram entrevistados
4.514 profissionais de oito países (Brasil, Argentina, Chile, México, Equador, Colômbia, Venezuela e Peru), sendo que a maior parte deles tinha entre 25 e 29 anos de idade (34%). Da amostra total, 1.319 eram brasileiros. A maioria era jovem, com menos de 30 anos de idade (25% estavam na faixa etária de 25 a 29
anos e 43% possuía 24 anos ou menos). Um quinto dos entrevistados brasileiros (20%) era formado por estagiários. Esse contingente de futuros profissionais, em
breve, vai assumir cargos de liderança. A pesquisa aponta que o Brasil é também o país com líderes mais jovens nas empresas.
Ricardo Romeiro, gerente de estágios do Instituto Euvaldo Lodi, acredita que o crescimento da economia
brasileira, especialmente nas áreas industriais e de serviços, também é responsável pelo investimento em jovens talentos. “As empresas estão reservando muitos recursos para investir na capacitação de antigos e novos funcionários. Investir no estagiário é formar uma base de profissionais qualificados, para que não seja preciso buscar essas pessoas no mercado”, analisa. Segundo Romeiro, as empresas que contratavam estagiários para servir de mão-de-obra barata estão acabando.
Em empresas de grande porte, como a Ambev, os processos de seleção para as vagas são disputados e rígidos. Segundo Marcela Dário, gerente de Gente e Gestão da unidade da empresa em Brasília, a proposta da companhia é investir nos estagiários para contratá-los depois. “Buscamos selecionar candidatos já alinhados com o perfil da empresa, pensando na possibilidade de
efetivação. Tentamos desafiar os jovens para desenvolvê-los o mais rápido possível”, conta. Os programas de estágio são estratégicos, por isso são destinados a universitários que estão concluindo o curso.
Apesar do grande investimento feito em programas de estágio no país, os brasileiros ainda são os menos competitivos no mercado global. A razão é simples: falta de conhecimento de línguas estrangeiras, especialmente da inglesa. Apenas 64% dos entrevistados afirmaram ter fluência no idioma, enquanto o índice de conhecimento da língua entre os profissionais do México e da Argentina, por exemplo, chega a 92% e 86%, respectivamente.
O domínio do idioma, que era um diferencial, se tornou pré-requisito de seleção para inúmeras empresas, mesmo dentro do país. Em um mundo globalizado, conhecer a língua mais utilizada nas relações comerciais é fundamental. “Falar inglês é básico e, hoje, há muitas alternativas baratas para aprender a língua. Os jovens devem se preocupar em se qualificar nesse sentido porque, quando não é pré-requisito, o conhecimento da língua inglesa serve como critério de desempate entre candidatos
a uma vaga”, alerta Rudney.
Romeiro também critica o descaso dos profissionais brasileiros com o conhecimento de outros idiomas. “O país demorou a perceber que estava vivendo em um mundo globalizado. Há muita gente correndo atrás disso agora. A dica para os estudantes é não perder tempo e estudar outra língua”, sugere. A gerente da Ambev reconhece que muitos candidatos deixam de
disputar as vagas por não saberem falar inglês. “Há uma tendência de melhora nesse sentido, mas isso ainda tira muita gente do processo”, comenta Marcela.
Janile Lima Soares, 24, já deixou de concorrer a diversas vagas de estágio exatamente por causa disso. A estudante do 8º semestre de administração nunca estudou o idioma. “Deixei de participar de muitas seleções que exigiam
conhecimentos da língua. Sinto que já não é mais um diferencial falar inglês. Tem que saber”, reconhece. A jovem, que trabalhava em uma rede de supermercados, começou a fazer estágios na área de administração há pouco tempo. Para ela, o trabalho é fundamental. Com o salário, Janile paga a mensalidade do curso (ela tem bolsa de 50% do Programa Universidade para Todos).
A partir da experiência, ela acredita que poderá se empregar mais facilmente após a formatura. “A gente conhece mais gente, aprende sobre a profissão e abre portas”, diz. Conrado Castanho Cortez, 24, estudante do 9º semestre de administração, está prestes a se formar. Estagiário da área de vendas da Ambev,
ele está otimista com a possibilidade de ser contratado. O jovem conta que, antes de começar a estagiar, procurou se capacitar ao máximo para enriquecer o currículo. Primeiro, trabalhou na empresa júnior da universidade. Depois, passou dois anos fora do Brasil. Aprendeu o inglês e fez cursos na área de negócios.
“Foi uma experiência desafiadora em todos os sentidos, mas cresci bastante.”
Mira no futuro
Uma pesquisa realizada com 880 estudantes em São Paulo
pelo projeto Jovens Agentes pelo Direito à Educação (Jade), da organização Ação Educativa, mostra que os jovens chegam ao ensino médio com a expectativa de sair de lá prontos para o mercado. O que, na prática, não se consolida. Por isso, o
estágio acaba sendo a grande oportunidade de preparação para o mundo do trabalho.
Valter Lopes, diretor executivo da Estagiarios.com, empresa de recrutamento, acredita que o aumento no número de estudantes ao longo dos anos influenciou a contratação de mais estagiários. Além disso, as pequenas empresas
passaram a contratá-los também. “É o sonho de todo empresário ter funcionários qualificados, com formação elevada, sem vícios de outras companhias e comprometidos com o trabalho. Esse é o potencial dos estagiários”, sustenta.
Patrícia Correia Castro, de 19 anos, fez o primeiro estágio ainda no ensino médio. Ela queria adquirir experiência de trabalho, conhecer possibilidades de futuro. Trabalhou no Fórum do Gama, onde mora, durante dois anos. Com o dinheiro da bolsa-auxílio, Patrícia pagava um cursinho de inglês.
“Foi ótimo ter trabalhado naquela época, porque abri minha cabeça para o mundo do trabalho”, conta. Hoje, aluna do curso de relações internacionais, ela faz estágio em sua área de formação, em uma assessoria parlamentar. “Estou aprendendo bastante e é uma rotina puxada, mas vale a pena”, afirma.
Novas regras
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve sancionar, nos
próximos dias, uma lei que regulamenta as atividades de estágio em todo o país. O projeto aprovado no Congresso Nacional foi alvo de muitos debates. Apesar de não ser consenso entre as partes envolvidas (estudantes, instituições de ensino
e empresas) e de haver previsão de redução de vagas, os especialistas do setor estão otimistas em relação à nova legislação. “No geral, ela será positiva. A lei que regia os estágios era a mesma havia 30 anos. Cada estado adotava regras
diferentes, era uma bagunça. Agora, as obrigações e os direitos estão claros”, opina Ricardo Romeiro.
O presidente da Associação Brasileira de Estágios, Seme
Arone Júnior, acredita que o maior prejuízo será para os estudantes de ensino médio, os mais numerosos no país. A nova lei limita a contratação desses estagiários em até 20% o número de funcionários das empresas. “Estamos prevendo que, até os empresários se adaptarem à lei, haverá uma queda de 20% na oferta de vagas”, analisa. Aos poucos, ele acredita que as pessoas vão perceber que as regras darão mais qualidade ao aprendizado do aluno. Seme ressalta que as instituições de ensino serão obrigadas a acompanhar mais de perto as atividades
e as empresas terão de nomear um tutor para supervisionar os estagiários.
Um aspecto positivo, para os especialistas, é que a limitação não se estenderá aos estudantes de ensino superior. Além disso, os profissionais liberais, como arquitetos e advogados, poderão contratar estagiários, o que não era permitido.