
O Brasil ainda desperdiça milhões de talentos enquanto o estágio é um incentivador da economia e educação no país.
O Brasil convive com um paradoxo preocupante. Nunca tivemos tantos jovens estudando e, ao mesmo tempo, tantos deles encontrando dificuldades para conquistar a primeira oportunidade profissional. Em um mercado cada vez mais competitivo, a experiência prática tornou-se um dos principais diferenciais para ingressar no mundo do trabalho. Porém, milhões de estudantes sequer conseguem dar o primeiro passo.
Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e expostos pela Associação Brasileira de Estágios (Abres), o país possui 9.861.024 estudantes do ensino médio e técnico aptos ao estágio. Entretanto, apenas 275 mil exercem essa atividade, o equivalente a 2,79% desse universo.
No ensino superior, o cenário também chama atenção. Dos 10.227.266 universitários brasileiros, somente 925 mil participam de programas de estágio, representando 9,04% dos estudantes. Em outras palavras, mais de 20 milhões de alunos podem estagiar no Brasil, mas apenas cerca de 1,2 milhão consegue uma oportunidade. Isso significa: apenas 6% dos jovens aptos ao estágio estão, de fato, desenvolvendo experiência profissional.
Os dados evidenciam uma realidade preocupante. O país ainda desperdiça talentos ao não conseguir transformar a formação acadêmica em oportunidades concretas de inserção profissional.
A dificuldade enfrentada pelos estudantes de período integral
A realidade torna-se ainda mais complexa para estudantes de cursos integrais. Muitos deles passam anos conciliando uma carga intensa de aulas, atividades práticas, trabalhos acadêmicos e projetos de pesquisa, sem conseguir encontrar tempo para participar de um programa de estágio.
Ao concluírem a graduação, esses jovens enfrentam uma situação contraditória. Possuem conhecimento técnico, dedicação e vontade de trabalhar, mas esbarram em uma exigência frequente das empresas: a experiência profissional.
Trata-se de um círculo difícil de romper. O estudante não consegue estagiar durante a graduação por falta de tempo e, depois de formado, encontra portas fechadas justamente pela ausência dessa vivência prática.
O que propõe o Projeto de Lei 7021/2017?
Nesse contexto, o Projeto de Lei 7021/2017, de autoria do deputado federal Alex Manente – PPS/SP, surge como uma iniciativa relevante para ampliar as oportunidades de inserção dos recém-formados no mercado de trabalho. A proposta prevê a possibilidade de estudantes de cursos integrais realizarem estágio por até um ano após a conclusão da graduação.
A medida reconhece uma realidade presente em diversas áreas do conhecimento e oferece uma alternativa para reduzir as barreiras enfrentadas na transição entre universidade e emprego. Além de uma mudança legislativa, o projeto representa uma oportunidade para repensar a forma como o Brasil prepara seus jovens para o mercado de trabalho.
O estágio como ferramenta de transformação social
O estágio possui um papel transformador na vida profissional, representa um ambiente de aprendizado, desenvolvimento de competências, construção de relacionamentos profissionais e descoberta de vocações. Nessa experiência, muitos jovens aprendem a lidar com desafios, compreender a dinâmica das organizações e transformar conhecimento teórico em prática.
Diversos profissionais iniciaram suas trajetórias por meio de um programa de estágio. Em muitos casos, a oportunidade funciona como uma verdadeira ponte entre a sala de aula e o emprego formal. Permitir uma extensão dessa possibilidade para estudantes de período integral significa criar uma nova porta de entrada para o mercado de trabalho e ampliar as chances de empregabilidade de milhares de recém-formados.
Uma resposta para um problema histórico
O Brasil precisa enfrentar um problema histórico: a dificuldade de muitos jovens em conquistar a primeira experiência profissional. Naturalmente, toda discussão sobre mudanças na legislação deve ser conduzida com responsabilidade e amplo debate entre os diversos atores envolvidos.
Contudo, também precisamos reconhecer uma realidade incontestável: diante de um cenário no qual apenas 6% dos estudantes aptos ao estágio conseguem uma oportunidade, torna-se fundamental pensar em alternativas capazes de ampliar o acesso à experiência prática. Recém aprovado pela Comissão de Educação, o Projeto de Lei 7021/2017 contribui para esse debate ao propor um caminho voltado à inclusão, à empregabilidade e ao desenvolvimento de talentos.
Aproximar educação e mercado é um desafio do país
O desenvolvimento econômico e social do Brasil passa pela capacidade de preparar suas novas gerações para os desafios profissionais do presente e do futuro. Quando criamos mais caminhos para a formação prática, ampliamos as possibilidades de desenvolvimento dos estudantes, das empresas e da própria sociedade.
Investir em oportunidades de estágio significa investir em talentos, inovação, produtividade e competitividade. A aproximação entre educação e mercado de trabalho não pode ser vista apenas como uma demanda das empresas. Trata-se de uma necessidade nacional.
Oportunidade para construir o futuro
O Projeto de Lei 7021/2017 coloca em pauta uma reflexão importante: como podemos garantir a mais jovens a oportunidade de transformar conhecimento em experiência e, principalmente, experiência em carreira?
Precisamos criar mecanismos capazes de ampliar oportunidades, reduzir desigualdades e permitir a mais estudantes o acesso ao desenvolvimento profissional. O Brasil possui milhões de talentos em formação. O grande desafio está em abrir portas para eles. Porque, ao investir na primeira experiência profissional dos jovens, estamos investindo também no futuro do país.
Seme Arone Jr. é presidente da Associação Brasileira de Estágios (Abres).