TV Abres: a instituição de ensino pode preparar um estagiário?

Especialistas defendem maior aproximação entre universidades e empresas para formar profissionais mais preparados para os desafios do mercado.

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O estágio continua sendo uma das principais pontes entre a sala de aula e o mundo corporativo. No entanto, enquanto as empresas exigem profissionais mais adaptáveis, colaborativos e preparados para ambientes digitais, cresce também o debate sobre o papel das instituições de ensino na formação dos futuros talentos. Afinal, a faculdade consegue preparar um estudante para os desafios reais da carreira?

A discussão é cada vez mais relevante. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, 69% dos empregadores brasileiros afirmaram encontrar dificuldades para contratar profissionais com as competências necessárias para as vagas disponíveis. Nesse cenário, o papel das escolas e universidades vai muito além da transmissão de conteúdo. Elas passam a atuar como parceiras estratégicas na construção da empregabilidade dos estudantes.

Mercado e academia ainda enfrentam desafios de alinhamento

“Quando analisamos se as IEs estão alinhadas com as demandas do mercado, percebemos como ainda há um desafio em evolução constante a ser percorrido. Muitas instituições já avançaram na inclusão, na prática de mais dinâmicas, em tecnologia e desenvolvimento daquilo conhecido como soft skills. Porém, ainda existe uma distância entre o mercado acadêmico e a realidade praticada nas empresas”, analisa Marcelo Araujo, supervisor nacional institucional do ISBET. Embora muitas tenham ampliado o foco em competências como comunicação, trabalho em equipe e resolução de problemas, nem sempre os alunos têm oportunidades suficientes para aplicar esses conhecimentos em situações próximas da realidade corporativa.

Essa lacuna se torna ainda mais evidente diante das transformações constantes. Segundo o relatório Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, cerca de 39% das aptidões exigidas dos trabalhadores devem mudar até 2030. Entre os mais valorizados estão pensamento analítico, adaptabilidade, criatividade e aprendizado contínuo, e todas exigem experiências práticas para serem desenvolvidas de forma consistente. “O fundamento ensinado em sala de aula assume um papel mais ativo na formação e preparação do estudante, conectando a teoria, a prática e promovendo experiências para estimular o ambiente profissional”, complementa Araujo.

O estágio transforma conhecimento em experiência profissional

Para especialistas, essa modalidade continua sendo o principal instrumento para reduzir a distância entre formação acadêmica e mercado. Durante essa vivência o discente aprende a lidar com prazos, equipes multidisciplinares, desafios reais e a dinâmica das organizações. “Não tem outra forma: não existe ‘experiência teórica’, ela é prática e o estágio vai te dar isso, ou seja, praticar muito. Essa aproximação é muito importante”, observa Reginaldo Kaeneêne, presidente do KNN Group. 

Os números mostram o impacto dessa vivência na carreira dos jovens. Dados do Centro de Integração Empresa-Escola indicam: quem estagia durante a graduação apresenta maiores índices de empregabilidade após a formação, justamente por chegarem ao mercado com vivência prática e maior maturidade profissional.

Para as empresas, o benefício também é significativo. Programas de estágio permitem formar talentos alinhados à cultura organizacional, reduzir custos de recrutamento e criar pipelines de sucessão para posições futuras. Em um cenário de escassez de mão de obra qualificada em diversas áreas, investir em profissionais em formação tornou-se uma estratégia cada vez mais competitiva. “Empresas e faculdades precisam atuar juntas por meio de uma parceria estratégica. É essencial existir um diálogo constante entre o mundo acadêmico e corporativo, para a formação estar alinhada às reais necessidades do mercado”, conclui Araújo.

No fim das contas, preparar um estagiário não é responsabilidade exclusiva da instituição de ensino e nem da empresa. O sucesso dessa formação depende da conexão entre ambos os universos. Quando universidades, agentes de integração e organizações trabalham de forma colaborativa, os estudantes chegam mais preparados para os desafios profissionais, enquanto as empresas conseguem desenvolver talentos com maior aderência.

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