
Apenas 39% dos estudantes ingressantes conseguem concluir a graduação, cenário reforça importância do estágio para permanência e empregabilidade
Nas últimas duas décadas, o Brasil ampliou significativamente o acesso ao ensino superior. O número de universitários saltou de 3,5 milhões, em 2002, para mais de 10,2 milhões em 2024, conforme o último censo divulgado pelo Inep/MEC e exposto pela Abres – Associação Brasileira de Estágios. O crescimento representa uma conquista importante para o país e reflete a expansão das instituições privadas e da educação a distância.
Contudo, um problema persiste: entrar na faculdade não significa conseguir concluir. Segundo os dados, apenas 39% dos estudantes ingressantes terminaram a graduação até 2024. Isso significa uma evasão acumulada próxima de 60%, revelando um dos maiores gargalos da educação brasileira. O desafio não está mais apenas no acesso. Está, sobretudo, na permanência.
Por que tantos jovens abandonam o curso?
As razões para evasão são múltiplas e envolvem fatores econômicos, emocionais e estruturais. Muitos estudantes precisam trabalhar para complementar renda e encontram dificuldade para conciliar rotina profissional e acadêmica. Outros enfrentam dúvidas sobre carreira, falta de apoio ou desmotivação ao não enxergar conexão prática entre teoria e futuro profissional.
Na educação a distância (EaD), o desafio torna-se ainda maior. Em 2024, a taxa anual de abandono chegou a 24,1%, enquanto no ensino presencial ficou em 9,5%. O EaD ampliou oportunidades de acesso, especialmente para estudantes de regiões remotas ou com restrição de tempo, mas também trouxe novos desafios relacionados ao engajamento e à permanência. A flexibilidade existe, mas sem vínculo com a prática profissional, muitos jovens acabam perdendo o sentido da formação.
O estágio como ferramenta contra evasão
Diante desse cenário, o estágio ganha protagonismo como uma das principais ferramentas para a permanência estudantil. Quando o jovem ingressa em uma oportunidade prática relacionada ao curso, cria maior identificação com a profissão, desenvolve propósito e consegue visualizar caminhos concretos para o futuro. O aprendizado deixa de ser abstrato e passa a ter aplicação real.
Existe ainda um aspecto econômico importante: a bolsa-auxílio ajuda muitos estudantes a permanecerem matriculados. Vale lembrar: para estagiar, o jovem obrigatoriamente precisa estar vinculado à instituição de ensino. Ou seja, o estágio fortalece a continuidade acadêmica.
Empresas, portanto, não estão apenas contratando estudantes. Estão ajudando a evitar abandono escolar e contribuindo diretamente para formação de talentos.
Agentes de integração aproximam educação e mercado
Nesse contexto, os agentes de integração exercem papel estratégico. Essas instituições atuam como facilitadoras da relação entre estudantes, empresas e escolas, assegurando conformidade legal e acompanhamento contínuo.
Mais do que intermediar vagas, ajudam organizações a estruturar programas eficientes e orientam estudantes sobre oportunidades alinhadas ao perfil acadêmico. Defender os agentes de integração significa defender uma educação mais conectada à realidade do trabalho.
Permanecer também é vencer
Concluir uma graduação exige esforço, resiliência e oportunidades. Muitos jovens brasileiros enfrentam jornadas duplas, limitações financeiras e incertezas sobre o futuro. Ainda assim, seguem tentando construir uma trajetória melhor por meio da educação.
O Brasil precisa transformar acesso em conclusão e isso exige colaboração entre empresas, instituições de ensino e sociedade. Cada estudante formado representa mais inovação, produtividade e desenvolvimento. Quando investimos em estágio, não apenas ajudamos um jovem a permanecer na faculdade, ajudamos a construir profissionais preparados para transformar o país. Porque todo talento merece não apenas começar uma jornada, mas ter condições reais de chegar ao fim dela.
*Seme Arone Jr., presidente da Associação Brasileira de Estágios (Abres)