
O papel dos gestores mudou nos últimos anos
Durante muito tempo, liderar foi sinônimo de controlar. Estar no comando significava concentrar decisões, acompanhar cada detalhe e garantir tudo exatamente como planejado. Cresci profissionalmente dentro desse modelo e, por um período, acreditei ser o mais eficiente, mas não era.
A ruptura não veio da teoria, e sim do contato direto com o universo dos estágios e da formação de novos profissionais. Ao longo desses anos, acompanhei de perto como organizações insistem no modelo de comando e enfrentam dificuldades crescentes para atrair, engajar e reter jovens talentos.
A nova geração não foi formada para funcionar no automático. Ela quer pensar, questionar e propor. Essa mudança de perfil do profissional iniciante reflete em uma necessidade de transformação também dos gestores.
O controle se torna prejudicial
Em ambientes de alta pressão e crescimento acelerado, o modelo baseado em comando começa a falhar justamente quando a empresa precisa de velocidade, consistência e autonomia. Quanto mais o negócio evolui, menos o controle direto sustenta o resultado.
O ritmo atual das corporações não tolera centralização. A informação circula em tempo real, o comportamento do cliente muda com frequência e as equipes precisam responder com rapidez. Nesse cenário, o gestor controlador deixa de ser solução e torna-se um gargalo. Afinal, tudo depende dele e, inevitavelmente, atrapalha a dinâmica.
No contexto dos estágios, essa realidade é ainda mais evidente. O jovem traz consigo uma energia e capacidade de adaptação às quais o modelo controlador simplesmente não sabe aproveitar. Quando submetido a uma gestão excessivamente hierárquica, ele cumpre tarefas, mas não desenvolve. Em pouco tempo, vai embora.
A falsa sensação de segurança
Existe um ponto mais sutil e perigoso no excesso de controle: ele cria uma falsa sensação de segurança. Na prática, a operação está se enfraquecendo. As pessoas param de pensar, executam no automático e passam a trabalhar para atender expectativas.
Ao longo da minha trajetória, vi isso acontecer de perto em diversas organizações, resultando em baixo engajamento e alta rotatividade de estagiários. O diagnóstico, em geral, é o mesmo: a liderança atrapalhando o fluxo.
A virada não é sobre abrir mão da gestão, mas sobre redefini-la. É preciso construir um sistema para as coisas acontecerem com ou sem a presença do gestor. Essa mudança transforma tudo.
Tecnologia acelera a transformação
Com o avanço da tecnologia, esse movimento se torna ainda mais inevitável. Automação e Inteligência Artificial (IA) já assumem tarefas operacionais e parte das decisões do dia a dia. O comando vira direcionamento.
A nova geração de profissionais chegará cada vez mais familiarizada com ferramentas digitais, mas precisará de lideranças capazes de oferecer propósito, clareza e autonomia em vez de tarefas repetitivas e supervisão excessiva.
Nenhuma operação saudável depende de uma única pessoa para funcionar bem. Quando isso acontece, há algo errado.
*Seme Arone Júnior é presidente da Associação Brasileira de Estágios – Abres