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Abres - Associação Brasileira de Estágios

::18-02-18 / O Globo

Processos mais rígidos e melhores benefícios para os estagiários

RIO — O estágio é a prévia do mercado de trabalho e, à medida em que as novas gerações são inseridas, com seu frescor e agruras, ele também se transforma. Se há longínquas décadas bastava estar estudando, ser desenvolto e conhecer o básico do computador, hoje estas habilidades são insuficientes para o que as empresas buscam.

Com processos seletivos muito mais rígidos, que incluem dinâmicas em grupo, entrevistas e testes, o mercado de estágio ganhou status de gente grande, estilo #real.

— O mundo em constante mudança traz clientes cada vez mais exigentes. Para atender a esta demanda, precisamos buscar profissionais e estagiários cada vez mais capazes e preparados para dar conta do recado. Se por um lado isso é bom para a qualidade do serviço, por outro isso torna a contratação mais difícil, pois uma das características desta geração é a suposição de que conhecimento e currículo técnico são meros detalhes quando comparados a outros atributos profissionais — avalia Viviane Kurtenbach, diretora-técnica da Velox Fitness, que está com 20 vagas para o início em março.

Na contramão das exigências, as ofertas de bolsa e vale-transporte também já não despertam o brilho no olhar juvenil. Com isso, as empresas precisam estar em constante adaptação para atrair e reter os bons talentos, o que deixa os benefícios mais incrementados. Vale-cerveja, desconto em farmácias e academias e até salas de lazer com totó e videogame são só alguns dos atrativos.

Para o presidente da Associação Brasileira de Estágios (Abres), Seme Arone Junior, exigências e ofertas estão diretamente ligadas. Segundo ele, quando há um estágio bem definido, de empresas maiores, com bolsas e treinamento na área, a vaga é mais concorrida.

Isso acaba resultando em um processo mais detalhado e acirrado, o que, por sua vez, demanda empenho superior das empresas nessa concorrência em angariar os melhores do mercado.

Esta é também a opinião de Henrique Calandra, fundador do WallJobs. Ele considera que os jovens também estão mais criteriosos sobre as empresas em que desejam trabalhar e principalmente as tarefas a serem desenvolvidas.

— Servir café é uma coisa que eles não querem. Todo estagiário quer entrar para executar. O perfil dos jovens é mais qualificado do que era anos atrás: mais preparado e com mais acesso à tecnologia — afirma Calandra.

Dois pesos, duas medidas

Nessa via dupla do que se quer e do que se oferece, o estagiário de hoje precisa ser mais resiliente ainda que seus veteranos, pensar fora da caixa e, claro, pôr a mão na massa mesmo. Progredir profissionalmente não é tão rápido quanto as suas mensagens instantâneas.

— O jovem hoje é muito imediatista, querem resultados rápidos, mas o mundo está exigindo respostas rápidas deles também — afirma Elane Vieira, gerente de gestão e performance da seguradora Mongeral Aegon, que lançou um programa especial de estágio no ano passado com benefícios que incluem cursos na Universidade Corporativa da empresa, sala de descanso com jogos, café da manhã e academia.

Marcelo Redoschi de Carvalho, superintendente de atração e desenvolvimento do Itaú Unibanco, destaca que o jovem de hoje precisa estar sempre apto para as adaptações.

— Nesse mundo com grande fluxo de informações e mudanças, é preciso ter as capacidade de aprender, não só no estágio, mas em toda a carreira.

Em contrapartida, ele avalia que aquela pressa comum aos jovens desta geração de crescer mais rápido do que o tempo de esforço aplicado — em especial dominadas pelo ritmo imediatista em que vivem — ainda é presente nesta geração.

Contudo, destaca que, mais que uma boa bolsa, eles querem é fazer parte da rotina da empresa e ter a chance de circular por outras áreas. Por isso, o programa de estágios da empresa passa constantemente por adaptações.

— O jovem de hoje nasceu em um período de grande avanço tecnológico, prosperidade financeira e facilidade material. Este ambiente proporcionou um crescimento estimulado por muitas atividades e possibilidades. Por estas características, é comum buscarem novas oportunidades, desafios e crescimento profissional — corrobora Viviane.

Ela ressalta que o dinamismo e a intimidade com as novas tendências, sobretudo tecnológicas, têm levado os estagiários de hoje a contribuírem com novas ideias e projetos. Por serem movidos a desafios, diz, são ótimos para alavancar o desenvolvimento da empresa.

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Nesse quesito de novos anseios, Thereza Assunção, gerente de Recursos Humanos da Nasajon Sistemas, acrescenta que a flexibilidade também ajuda na retenção dos talentos.

— É um fator de destaque para os estagiários, que além da faculdade, também desejam administrar a sua vida pessoal com qualidade.

Processos seletivos e experiência

Outra característica dos programas de estágio atuais é o processo seletivo. Dinâmicas em grupo, entrevistas e provas até então comuns na concorrência para cargos efetivos agora são cada vez mais habituais para uma vaga.

Para o engenheiro de produção e ex-estagiário Marcelo Costa Teixeira, de 24 anos, hoje contratado pela Mongeral Aegon após dois anos de estágio, as etapas são positivas.

— Acho justo porque não tem como se diferenciar ainda através do currículo, não tendo experiência. Com as dinâmicas, cada um é avaliado pelo que é e por suas habilidades.

Ana Carolina Macieira, gerente regional de gente e gestão da Ambev, uma das empresas muito concorridas pelos estagiários, explica que a rigidez dos processos se deve pelo objetivo de contratar ‘futuros líderes’.

— O processo seletivo tem várias etapas porque o objetivo é efetivar este estagiário. Não buscamos mão de obra barata, mas desenvolver este profissional alinhado à empresa — diz Ana Carolina, citando o seu exemplo. Ela estagiou há 13 anos na Ambev e hoje ocupa um cargo de liderança em sua área.

Vale ressaltar que, com todas as exigências e a concorrência nesta iniciação na carreira, o estagiário é um estudante ainda. Portanto, as empresas podem ensinar, mas não exigir um profissional completo e muito menos substituí-lo por um.

Ana Carolina explica que as experiências de vida também contam na hora da contratação. — Atividades realizadas fora da escola, projetos na faculdade e até pessoais contam — afirma. Fique de olho: estágio tem que ser útil para a carreira

Se a empresa pedir experiência, mais de 30 horas ou trabalho ‘no amor’, a chance de entrar numa fria é alta

Hoje, segundo a Associação Brasileira de Estágios (Abres), de 9,6 milhões de alunos do Ensino Médio, 260 mil estão estagiando. No Ensino Superior, de 8 milhões, são 740 mil iniciando a carreira. E embora os objetivos sejam aprender e reter talentos, algumas instituições querem apenas mão de obra barata. Fique atento!

O presidente da Abres, Seme Arone Junior, esclarece que o estágio legal deve ter, no máximo, 30 horas e que a empresa não pode pedir experiência prévia do estudante.

— Pode-se exigir o básico, como um português adequado e o raciocínio lógico, além de conhecimento em ferramentas mínimas como Word e Excel e saber escrever um e-mail corporativo, por exemplo. Mas se pedir experiência já não é vaga de estágio — afirma.

Entretanto, ele destaca que há casos, sim, em que exigências como inglês fazem sentido: — Os programas específicos e o inglês dependem do lugar e da atividade. Por exemplo, uma multinacional ou uma função específica na qual ele quer trabalhar.

Segundo Henrique Calandra, do WallJobs, em geral essas exigências são feitas por empresas multinacionais seguindo a política da matriz, pois entende-se que serão necessárias para o desenvolvimento do futuro profissional.

— Quando é necessário utilizar essas habilidades dentro do trabalho, faz muito sentido, mas colocar isso como empecilho na vaga pode afastar futuros talentos — pondera Calandra, lembrando que as empresas não podem ter especificações de gênero, idade e etnia para ocupação da vaga.

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Entre as bizarrices, ele cita o pedido de uma startup alemã que queria um aluno que falasse inglês e alemão avançado, e com um ano de experiência já.

— Nós acabamos não aceitando. Às vezes, acontece de quererem alguém com altas habilidades, oferecendo salário de estagiário.

— Ao longo do tempo, as empresas perceberam a importância da troca crescente de experiências entre os estagiários e os profissionais, e o quanto essa troca favorece a melhoria contínua e os resultados das empresas. Eles sempre agregam de forma muito positiva. Vale lembrar que os nossos estagiários aprendem muito, mas também têm o que ensinar — diz Viviane Kopke, gerente de RH do SuperPrix, que está com vagas nas áreas de engenharia de alimentos, nutrição ou engenharia de produção.